23
abr
10

388

10 anos se passaram desde que a deixei. Não sei como ela está, nem quero saber. Segui o meu caminho. A guerra não faz exceções para amantes ou qualquer sentimento – ela é implacável e exige de todos. Minha cidade natal agora não passa de destroços, cinzas e miséria.

Cidades pequenas como a minha sofrem assim. As grandes corporações se instalam aqui, nos escravizam por miúdos e corrompem seus filhos. Se tiver sorte você entra para os militares e vira um peão na mão deles. Se tiver azar vira uma espécie de robô trabalhando 12 horas diárias.

Andando pelo que foi o centro de minha cidade, vejo maltrapilhos, crianças correndo e brincando. Como é possível existir algum resquício de inocência neste lugar? Barracos destruídos. Os espólios da guerra. Até hoje lembro dos cartazes e propagandas militares, prometendo mundos e fundos para quem se alistasse. As cidades que mais contribuissem com soldados, seriam recompensadas a peso de ouro, diziam os militares. “Seus esforços não serão esquecidos cidadãos! Alistem-se já!”

Acontece que os plutocratas sabiam que não haveria vitória possível. Jogaram com a vida de milhares para que pudessem salvar seus malditos rabos. Esticaram a guerra o máximo que puderam, fizeram toneladas de dinheiro e quando não dava mais para lucrar sumiram. A esta altura estão em outro planeta…

Eu lutei lado a lado com meus companheiros, iludidos pelo fogo patriota e esperança de riquezas. Matei incontáveis inimigos e quase fui morto. Salvo pela Ordem. Onde fui acolhido, treinado e afastado de toda essa realidade massiva. Fui afastado desse foco doentio de misérias e guerra. Só assim pude ver, de fora, o quanto estava errado. O quanto fui manipulado…

Não pretendia voltar aqui nunca mais. Mas senti algo estranho, flashes, recordações e sonhos fragmentados. Uma maldita colcha de retalhos que não faz o menor sentido. Por alguma razão precisava voltar e ver com meus próprios olhos. Algo está acontecendo comigo e pretendo descobrir o que é.

****

O mensageiro atravessa o grande salão correndo rapidamente. Após breve pausa adentra a sala onde o mestre meditava.

– Senhor. Perdoe-me. Trago notícias.
– Adiante…

O mensageiro se aproxima e lhe entrega um bilhete. Uma espécie de carta, apenas mais informal que o costume. Fazendo um sutil movimento com a mão, ordena que o mensageiro lhe deixe sozinho. Após desdobrar o bilhete, põe-se a ler.

Mestre venho lhe pedir atenção para o seguinte assunto. Um de seus alunos deixou a academia, com seu consentimento a 2 anos atrás e não retornou. Não obtivemos nenhuma informação a respeito de seu paradeiro. O aluno em questão era um oficial e portanto, possuia deveres para com a Ordem. Peço que o senhor entre em contato o quanto antes a respeito deste assunto. Nenhum de nossos batedores dos postos avançados tem notícia deles. O único paradeiro sabido do membro em questão foi o seu destino. Sua terra natal. Tratar o assunto com discrição.

Atenciosamente – O conselho

O mestre abaixa a carta e sente um temor. A carta trazia assuntos oficiais, mas no entanto era informal. Não carregava o selo oficial da Ordem. Algo estava errado. Algo acontecia por debaixo dos panos. O mestre sabia que ele encontraria algo além do que esperava. Completamente estático o mestre fita o centro da sala. Suas feições são de seriedade. A serenidade, comum em seu rosto, já não se encontra.

Levanta-se e cruza o enorme salão. Procura um dos assistentes e diz:

– Preparam minha saída. Irei resolver um problema urgente. Avisem para que as devidas providências sejam tomadas em minha ausência.
– Mestre? O senhor está partindo? O que aconteceu?! Quando volta?

Ele apenas olha sério para o assistente e nada responde.

****

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Lixo da Vez - Ronaldo o FENOMENO?!

Oi, queria agradecer ao espaço cedido pelo amigo e também entusiasta da copa, Bocadoogro.
Vocês sabem que eu sempre fui brasileiro desde que nasci no Brasil. Gosto muito do brasil e vou curtir muito assistir a copa do meu telão de cinema na minha casa lá na europa.

Mas vim aqui para um assunto mais importante. Essa palhaçada toda de protesto a respeito de usar dinheiro da copa para fazer hospital. Amigo, repito e disse, não se faz copa com hospital! Precisamos de estádio. Esse dinheiro que foi pro estádio não iria para hospital. Se não fosse pela copa o estádio nem o hospital existiria.

Vocês reclamam de hospital, não entendo! Sempre que fico gripado ou preciso de médico o Sírio-Libânes tá lá de boa. Não entendo essas reclamações. Neste ponto eu apoio meu amigo Pelé, grande sábio. Vamos esquecer essas bobeiras e focar na copa.

Grande abraço para vocês, do Ronaldinho Fenômeno.


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